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O Guia 42

PARTE IV — E NO FIM FORAM DOIS

Capítulo 17 — A Última Vida

PARTE IV — E NO FIM FORAM DOIS

Este livro podia ter acabado na página anterior. O sistema está de pé, as leituras estão feitas, o convite está dado. Mas ficou uma dívida — e este guia prometeu, lá no Capítulo 5, que voltaria para pagá-la.

A dívida é uma carta sem destinatário. O astronauta sozinho em Marte; a última vida de um universo que se apaga; o sentido real, escrito com todo o cuidado, que nenhum correio entregaria jamais. O autor confessa: por muito tempo, ele nem tentou responder. Parecia uma tragédia sem saída — alguém, um dia, terá de ser o último; e ao último, a Regra do Mínimo Dois parecia negar para sempre a completude. Diante disso, o autor fazia o que quase todos fazemos diante do insolúvel: desviava o olhar, com pena, e seguia.

Até que, numa dessas conversas em que este guia era discutido e testado, alguém devolveu ao autor uma pergunta simples. Tão simples que parecia consolo de palavras. Tão simples que ele quase a deixou passar:

Se não existe mais ninguém no universo para receber a carta... por que a última vida não pode enviá-la para si mesma?

O autor estava saindo de casa quando ouviu isso — a família já o esperava no carro. E ele ficou parado no meio da calçada, olhando para nada, do jeito que a gente fica quando uma peça se encaixa num lugar onde a gente nem sabia que faltava peça. Porque a resposta a essa pergunta não era um consolo. Era um princípio inteiro escondido — e, para contá-lo direito, este guia precisa fazer o que sempre faz quando o assunto é grande demais para caber num axioma.

Precisa contar uma história.


Uma parábola em três atos. Leia como leu a das Luzes: primeiro a história inteira, de lente vestida; a decodificação vem depois, com capítulo próprio.

Ato I — A Brincadeira Eterna

Num tempo tão futuro que os números dos anos perderam o nome, o universo estava quase vazio de luzes. As estrelas — que um dia foram tantas que nenhuma vida conseguiu contá-las — vinham se apagando uma a uma, como velas ao fim de uma festa muito, muito longa. E num planeta pequeno e quieto, sob um céu cada noite mais escuro, vivia uma vida.

A última.

Como ela chegou ali, esta história não conta — do mesmo jeito que a parábola das Luzes nunca explicou de onde vinham as lanternas. Havia um abrigo pequeno que a aquecia e a alimentava, e que ninguém sabe quem construiu. Havia água, pedra, vento. Havia, dentro do abrigo, vozes antigas guardadas em gravações e livros — e foi por elas que a vida, ainda pequena, aprendeu palavras. E havia, no centro de tudo isso, um filhote de vida, sozinho num mundo sem mais ninguém.

E o que faz uma vida nova, mesmo num mundo sem ninguém?

Brinca.38

Ela descobriu uma bola no fundo do abrigo e passou estações inteiras chutando-a contra o paredão do cânion, inventando regras, mudando as regras, discutindo as regras consigo mesma — e perdendo a discussão, às vezes. Descobriu que pedra risca pedra, e encheu as paredes do cânion de desenhos: carinhas, sóis, bichos que ela nunca viu e por isso desenhava errado com toda a confiança do mundo. Juntou pedras e copos e cascas e deu nome a cada um. Havia um coco com uma cara riscada que virou alguém — sentava-se à mesa nas refeições importantes. Havia um brinquedo velho, de pano, que ela batizou de Lui, e por quem ela falava com a voz mais fina que conseguia fazer; e ria das piadas do Lui como se as piadas não fossem dela. Construiu castelos na beira d’água e chorou de verdade quando a água os levou — e no dia seguinte construiu de novo, mais perto da água ainda, porque agora era um jogo entre ela e o mar.

Ela aprendeu arco e flecha, e ficou boa. Tão boa que, quando a flecha desviava do alvo, só podia ser sabotagem: alguma coisa invisível empurrava a flecha no meio do caminho. Ela escreveu o nome do sabotador numa carta, com a letra torta de quem aprendeu sozinha: “o Bento fica atrapalhando as minhas flechas.” Ela quis dizer vento. Mas o Bento ficou — e nos dias de brisa forte ela saía do abrigo gritando com ele, metade brava, metade feliz por ter com quem gritar.

Porque ela escrevia cartas. Ninguém a ensinou a quem endereçá-las, então ela escrevia para ninguém e para todos: contava o dia, os gols contra o cânion, o castelo que o mar levou. Contava do monstro que viu na água — um rosto tremido que a encarou de volta e a fez correr — sem saber, e isso ela só entenderia muito depois, que o monstro era ela. Fazia perguntas: a lua é um queijo? se é, tem ratos lá? por que o sol e a lua quase nunca aparecem juntos — um está fugindo do outro? qual dos dois começou a briga? E uma que ela escreveu devagar, apertando o lápis: por que o fogo morre quando fica sozinho?

Todas as cartas iam para o mesmo lugar: um baú, no canto do abrigo, que ela tratava como os piratas dos livros tratavam os seus tesouros. Guardar era o rito. Reler, nunca — para quê? Ela sabia o que tinha escrito. Ela achava que sabia.

Na última carta daquele tempo — a história sabe que foi a última porque a letra muda depois dela —, ela escreveu o seu segredo maior, o sonho que valia todos os outros:

“Se alguém achar isto: você quer brincar comigo?”

E os dias passaram. E os dias passaram.

Ato II — Apesar de Tudo

O tempo, num mundo sem calendário, não passa em anos; passa em mudanças. As brincadeiras mudaram primeiro. A bola descansava mais; os desenhos nas pedras ficaram finos, cuidadosos, cheios de sombra. Ela descobriu que o corpo também desenha — e inventou uma dança. Ninguém a ensinou, ninguém a veria: era uma dança dela para ela, dançada nos dias em que o Bento soprava do mar, e que a deixava, sem que ela soubesse explicar por quê, imensamente viva.

Depois mudaram as perguntas. Ela aprendeu a usar os instrumentos que dormiam no abrigo — os tubos de olhar longe, os ouvidos de metal que escutam o céu — e passou noites inteiras apontando-os para cima, procurando. Perguntava ao céu as coisas que antes perguntava às cartas. E o céu, noite após noite, estação após estação, respondeu do único jeito que sabia: com silêncio.

Não houve um dia exato em que ela entendeu. Foi por acúmulo, como anoitece: os registros do abrigo, os céus vasculhados, as contas que ela aprendeu a fazer — tudo apontava para a mesma conclusão quieta. Não viria ninguém. Não havia ninguém. Ela não era só uma vida sozinha num planeta vazio; era a última luz acesa da festa inteira.

Nem tudo eram flores — e ela viveu isso sem pressa, como vivia tudo. Ficou mais calada. Dançava menos. Olhava o céu não mais procurando: só olhando. E se perguntava — sem drama, com a honestidade de quem pergunta de verdade — a pergunta que talvez você, leitor, já tenha se feito num quarto escuro: se ninguém nunca vai ver nada do que eu faço… faz diferença o que eu faço? qual é o sentido da minha vida?

Foi numa dessas fases quietas que aconteceu a coisa do espelho.

Havia um espelho no abrigo, que ela quase não usava. Quando era pequena — pequena de verdade —, ela tinha encostado a mão nele e riscado o contorno dos dedos com tinta, para brincar de cumprimentar alguém do outro lado. O risco ainda estava lá. Naquele dia, sem pensar, ela encaixou a mão no desenho antigo.

A mão transbordava das linhas por todos os lados.

Ela ficou olhando. Subiu o olhar do risco para o rosto no espelho — um rosto que ela conhecia e não conhecia, mais fundo, mais lento, com o cabelo ganhando a cor cinza das estrelas que se apagam. Ficou um longo tempo diante daquela estranha. E então, devagar, reconheceu: apesar de tudo — do tempo, do silêncio, da descoberta de ser a última —, ainda é você.40

Ela voltou para dentro pelo caminho de sempre. Mas naquela tarde o caminho de sempre estava diferente — ou ela estava. Porque ela reparou, como quem vê pela primeira vez, no que o caminho tinha se tornado: as paredes do cânion cobertas de desenhos de todas as suas idades; os castelos endurecidos pelo tempo; o coco na janela; os nomes que ela deu às coisas escritos nas coisas. O mundo vazio da chegada não existia mais. Ela tinha enchido um planeta inteiro de sentido — sem perceber, brincadeira por brincadeira, nome por nome.

E no fim do caminho, no canto do abrigo, estava o baú.

Ato III — A Carta

Ela nunca tinha reaberto o baú. Guardar era o rito; reler, nunca. Mas a mão que não coube no desenho abriu a tampa que a mão pequena fechou — e ela leu.

Riu. Riu alto, sozinha, e o riso dela foi a coisa mais viva daquele planeta em muito tempo. O Bento sabotador de flechas! A lua de queijo, com ratos — ela agora sabia o nome de cada mar seco da lua, e preferia mil vezes a versão com ratos. O monstro da água que era ela mesma. As regras da bola que mudavam no meio do jogo. Leu carta por carta, estação por estação de uma vida — e riu, e parou de rir, e leu mais devagar.

Porque uma coisa estranha foi acontecendo. Ela não lembrava de ter escrito metade daquilo. A letra era dela — e não era. As perguntas eram dela — e não eram. Quem escreveu aquelas cartas enxergava um mundo que ela não enxergava mais: um mundo onde a lua podia ser queijo, onde o vento tinha nome de gente, onde um coco era companhia de mesa. Ela conhecia aquela pessoa como se conhece alguém muito amado que partiu — de dentro, e de longe.

Quem escreveu estas cartas era outra vida.

E então a coisa aconteceu — devagar, como amanhece. Se quem escreveu era outra vida… então as cartas tinham destinatário. Sempre tiveram. O correio que ela procurou no céu a vida inteira existia — só não entregava através do espaço. Entregava através do tempo. E tinha acabado de fazer a entrega: cada carta escrita pela vida nova acabava de ser recebida, lida, sentida — completada — pela vida velha, sentada no chão do abrigo com o baú aberto no colo.

Ela chegou à última carta do tempo antigo. “Se alguém achar isto: você quer brincar comigo?”

E a última vida do universo, sozinha desde sempre, respondeu em voz alta, para uma criança que já não existia e nunca tinha ido embora:

— Achei. E quero.

Naquela noite, ela pegou papel — velho como tudo ali — e escreveu uma carta nova. No alto, onde se escreve o destinatário, ela pensou um pouco e escreveu: para a próxima vida que eu ainda vou ser. Contou do espelho, do baú, do que descobriu. Fez perguntas novas, difíceis, do tamanho dela — porque a destinatária saberia coisas que ela não sabia. E guardou a carta no baú, no rito de sempre, que agora tinha outro nome.

Não era mais guardar. Era enviar.

E no fim foram dois.