Pular para o conteúdo
O Guia 42

PARTE II — O SISTEMA

Capítulo 10 — O Tempo, a Finitude e a Percepção

Dois fatores invisíveis

Volte por um instante ao par vida-sentido, e note uma simetria que ele esconde. A vida se vê; o espaço se vê. Mas os seus pares — o sentido e o tempo — são invisíveis. Ninguém segura o tempo na mão, ninguém aponta para “ali está uma hora”; e no entanto sabemos que ele existe, e organizamos a vida inteira em torno dele. Com o sentido é igual: invisível, inegável, estruturante. Para lidar com o tempo, a humanidade inventou o relógio e a matemática — instrumentos para medir o que não se pega. Este guia propõe que a Lente 42 seja, para o sentido, o que o relógio é para o tempo: um instrumento para ler o que existe e não se vê.

E há uma consequência prática enorme nisso, porque o tempo de uma vida é finito. Não vamos entrar aqui na questão da imortalidade — assunto para mais adiante; basta o fato que toda vida conhece: o tempo é contado. Disso nasce a pergunta mais concreta que este capítulo enfrenta — não “o que é o tempo?”, mas como gastar bem o tempo que se tem?

Gastar bem o tempo

Gastar bem o tempo é difícil por uma razão que já vimos: a vida é imprevisível, e a ação erra. Não sabemos o futuro; não conhecemos as consequências diretas das nossas escolhas; e — o mais cruel — não sabemos hoje o valor que uma pessoa, uma situação ou um sentido terá amanhã. Não sabemos se teremos, no futuro, a oportunidade de reencontrar alguém, de perseguir aquele sonho, ou sequer se teremos a mesma vitalidade que temos agora. Toda decisão sobre o tempo — descansar ou avançar, ficar ou partir, adiar ou fazer agora, com quem estar, o que aprender — é tomada no escuro parcial.

Por isso, nenhuma vida acerta todas. E não é esse o alvo. O alvo é chegar ao fim e poder olhar para trás com gratidão: ter vivido com as pessoas que se queria, ter feito a maior parte do que se queria fazer, ter gasto o tempo — não perfeitamente, mas sabiamente, do jeito que se escolheu. Uma vida que, imperfeita, buscou ser melhor para si e para os outros; que fez coisas das quais se orgulha; que tem esperança de haver deixado um efeito bom, direto ou indireto, nas vidas que virão. Essa vida chega ao fim com uma calma que não se compra.

A última troca

Deixe-me contar uma cena — e peço que você a leia devagar, porque ela toca no assunto mais pesado deste guia, e o guia escolheu tocá-lo com a mão aberta, não de raspão.

Imagine uma vida bem velhinha, no fim do seu tempo orgânico. Uma vida que já viveu muito: emitiu muitos sentidos, recebeu muitos, guardou muitas memórias, amou bastante. Ela já está, dentro de si, em paz — grata pela vida que viveu, com esperança de que as coisas que fez seguirão fazendo bem a outras vidas depois dela. E imagine que, nesses últimos momentos, aparece outra vida — mais jovem, com mais tempo pela frente — que se senta ao lado e faz a coisa mais simples do mundo: ouve. Ouve as histórias, olha nos olhos, está presente.

O que acontece ali é uma última troca completa: uma emissão e uma recepção de sentido entre duas vidas. A vida velhinha é observada uma última vez em vida — vista, ouvida, reconhecida. E há algo imenso nisso, porque, como este guia vem dizendo desde o começo, sentir-se vivo é, no fundo, ser recebido por outra vida. Nos últimos instantes, sozinha, uma vida ainda pode conversar consigo mesma (a conversa interna consigo mesma). Mas com outra vida ao lado, ela pode fazer a coisa por inteiro: emitir para fora e receber de volta, sentir-se viva por completo uma última vez. Acredito — e aqui falo como quem nunca esteve perto disso — que a imensa maioria das vidas preferiria não estar sozinha nesse momento. Que a maioria gostaria de partir tendo alguém por perto.

E repare no que a vida mais jovem leva consigo depois: a última luz daquela vida que partiu. Aquela vida velhinha emitiu luz para muitas pessoas ao longo dos anos — mas aquele último vestígio, só quem estava ali recebeu. Não importa quem seja essa vida mais jovem; importa que houve alguém. É trágico e é bonito ao mesmo tempo. Talvez não exista ato de bondade mais profundo do que estar presente no fim de uma vida — dar a ela, no último instante, a experiência que toda vida busca do primeiro instante ao derradeiro: a de ser vista.

Por que a morte dá sentido

Aqui está uma das afirmações mais fortes deste guia, e uma das mais contra-intuitivas: é a morte que dá sentido à vida. É a finitude que dá urgência, peso, valor, importância. Por que proteger o que não pode se perder? Por que sentir a preciosidade de um tempo que não acaba? Um antigo ditado diz que a única coisa que sabemos com certeza é que um dia vamos morrer — óbvio, e por isso mesmo precisa ser dito aqui, porque é desse óbvio que este livro inteiro depende. Você provavelmente lerá este guia até o fim justamente porque sabe que o seu tempo é finito, que não pode desperdiçar a pequena — e enorme — vida que tem.

Nenhuma vida quer morrer. Toda vida quer viver: é o mais fundo do nosso ser, é a Manutenção falando. Num dos episódios mais lembrados da televisão britânica, um viajante do tempo, prestes a se transformar em outra versão de si, resume isso em quatro palavras: “eu não quero ir.”7 Nenhuma vida quer ir. E ainda assim, uma vida sábia é aquela que sabe que a hora de todo mundo chega — e faz as pazes com essa chegada. O mesmo viajante lamenta, antes de partir, que poderia ter feito muito mais; e é verdade, toda vida poderia ter feito muito mais, o potencial é sempre infinito. A sabedoria não é negar isso; é conseguir, mesmo assim, partir em paz.

Há um paradoxo bonito no encerramento de um ciclo. Nos últimos momentos, a Manutenção — o P1, manter-se vivo — se torna impossível; nenhuma vida, nem as que amam a que parte, consegue mais sustentá-la. O ciclo que começou quando a vida foi gerada (sem depender dela mesma, porque nenhuma vida se cria sozinha) se fecha quando a vida não pode mais se manter. E no entanto, mesmo quando o primeiro princípio se esgota, os outros quatro ainda podem acontecer: ainda se pode proteger, gerar sentido, sentir-se vivo e fazer outra vida sentir-se mais viva — aquela última troca. Nada mais poético do que isso: a vida encerra pelo mesmo lugar por onde não pôde começar sozinha, e faz do último gesto um gesto para dois.

A vida é uma poesia

Talvez seja essa a imagem que fecha o capítulo. Um cineasta que criou uma das maiores sagas do cinema explicou certa vez por que pai e filho, em filmes diferentes da história, viram heróis do mesmo jeito — cada um destruindo uma nave inimiga: “é como poesia; rima.”35 A vida rima assim. Nasce de outra vida e, no fim, tendo tocado outras vidas pelo caminho, parte — devolvendo ao mundo as luzes que acendeu. A resposta que este guia encontrou não é grandiosa nem cósmica; é simples, quase modesta. E talvez seja essa a maior surpresa de todas: depois de milênios imaginando que o sentido da vida seria algo imenso, reservado a uma civilização onisciente, a resposta chega pequena, pé no chão — e, ainda assim, rima. Como a boa poesia, ela diz muito com pouco.

A saudade da luz que fica

Existe um filme de animação que se passa no México e gira em torno do Día de los Muertos, o Dia dos Mortos. A premissa dele é exatamente a deste capítulo, vestida de fábula: quem morre continua “vivendo” numa outra terra enquanto houver, entre os vivos, alguém que se lembre dele. No dia em que a última pessoa esquece — a “segunda morte” —, aí sim a existência se encerra de vez.17 Traduzindo para a Lente 42 (e sem afirmar nada sobre o que há ou não há depois da morte — isso o guia não discute): o coração daquela vida, a vitalidade orgânica, de fato se vai. Mas o sentido dela não. A luz que ela emitiu continua acesa nas vidas que a receberam, e essas vidas seguem reemitindo essa luz para outras, transformando-a, passando-a adiante. Uma vida só se apagaria por completo se não restasse nenhuma luz emitida por ela em vida alguma — e quase sempre resta algum vestígio. Por isso o pintor de girassóis segue nos afetando um século depois de morto; por isso, num anime que muita gente ama, uma maga elfa segue agindo, séculos após a morte do companheiro humano que a ensinou a viver, com base na luz que ele deixou nela — ela não deixou que a luz dele morresse.18

E é isto o que dá à saudade a sua definição exata neste sistema. Perguntaram uma vez a um ator o que ele achava que acontece depois que morremos, e a resposta dele foi desarmante: “sei que os que nos amam vão sentir a nossa falta.”36 Está tudo aí. Não precisamos saber o que vem depois para saber isto: quando alguém parte, quem amava aquela vida sente falta, sente saudade — porque a luz dela ainda está em nós. Saudade é sentir a luz de quem partiu sem poder receber luz nova. Não é ausência de sentido; é sentido sem circuito — uma herança acesa cujo emissor se calou.

Uma palavra de cuidado antes de seguir. Este capítulo caminhou por lugares pesados de propósito, porque um guia sobre o sentido da vida seria desonesto se desviasse da morte. Mas se estas páginas encontraram você num momento em que o próprio fim parece uma saída, ou em que a vida perdeu o peso, por favor: procure outra vida com quem falar — alguém próximo, e ajuda profissional. A lente inteira deste livro aponta para uma direção, e é a oposta do isolamento: sentido se completa entre vidas, e ninguém deveria atravessar o escuro sozinho quando há mãos para segurar.

A percepção do tempo

O tempo corre igual para todos; a percepção dele, não. Três forças a moldam — e vale separar cada uma, porque cada uma diz algo diferente sobre como vivemos.

A primeira é a quilometragem. Um aventureiro do cinema, provocado sobre a idade, responde que não são os anos, é a quilometragem.19 A percepção do tempo depende menos do calendário e mais da estrada rodada — da bagagem de experiências acumuladas. É por isso que a infância parece durar séculos e a vida adulta parece evaporar: quando tudo é novo, cada momento exige atenção total e se estica; quando o caminho já é conhecido, a mente o percorre no piloto automático e ele encolhe. Viver coisas novas, nesse sentido, é uma forma de alongar o tempo.

A segunda é o molde social. A percepção também é calibrada pelos sentidos das outras vidas. Imagine quatro pessoas num elevador que demora. Três dizem, ao sair: “nossa, foi rápido”. A quarta, que sentiu a demora, hesita — e muitas vezes reajusta a própria percepção para caber na do grupo: “é, foi rápido mesmo”. O sentido coletivo puxa o sentido individual. Ela pode recusar o molde e insistir que demorou — mas recusar tem custo, e a maioria das vidas, na maioria das vezes, cede à leitura coletiva sem perceber que cedeu.

A terceira é a reescrita do passado e do futuro. Nenhum dos dois é fixo: ambos são remoldados pelos sentidos disponíveis no presente. Registros mudam, visões de mundo coletivas mudam, e com elas muda a percepção do que foi e do que será. Um romance famoso sobre um regime totalitário mostrou o caso extremo disso — um Estado que reescreve o passado para controlar o presente20 —, mas a versão cotidiana é íntima: a mesma infância é lembrada de um jeito aos vinte anos e de outro aos cinquenta, porque quem lembra mudou.

E vale parar um instante nessa última frase, porque ela é mais estranha do que parece. Faça o teste com um caderno velho. Abra um diário que você escreveu há dez ou quinze anos — ou uma mensagem antiga, uma redação de escola, qualquer coisa com a sua letra e a sua assinatura. Leia devagar. Boa parte das vezes acontece a mesma coisa: você concorda com uma frase, discorda de outra, não faz ideia do que motivou a terceira. Você reconhece a caligrafia e não reconhece a pessoa. Tecnicamente, isso é uma comunicação cruzada entre dois desconhecidos que por acaso moram no mesmo corpo. A distância que separa vocês dois não é feita de metros; é feita de anos — e, do ponto de vista do sentido, ela funciona como uma distância de verdade: exige tradução, produz surpresa, ensina coisas. Guarde a observação; por ora ela é só uma curiosidade sobre a percepção do tempo. Este guia volta a ela mais adiante, quando ela deixar de ser curiosidade. Podemos sempre tentar nos aproximar do passado e do futuro verdadeiros; nunca teremos a garantia de tê-los alcançado.