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O Guia 42

PARTE II — O SISTEMA

Capítulo 8 — Sentidos no Plural

Uma vida não tem um sentido. Tem vários — de tamanhos diferentes, em estados diferentes, mudando ao longo do tempo. Esta é a segunda razão do título deste guia: os sentidos da vida, sempre no plural.

Maiores e menores. Os sentidos se organizam em cadeias: um serve de degrau para o outro. Você trabalha hoje (sentido menor) para receber o salário (o meio) que paga a viagem do fim de semana (sentido maior). Olhado sozinho, o sentido menor pode parecer não valer nada — segunda-feira de manhã, planilha aberta, “qual é o sentido disto?” — e valer tudo quando visto como degrau. Quem entende essa arquitetura atravessa processos duros sem se perder, porque sabe onde mora o sentido do processo: no sentido maior que ele serve. Um psiquiatra que sobreviveu ao pior lugar que a humanidade já construiu — os campos de concentração — observou exatamente isso nos companheiros de cativeiro: quem enxergava um sentido além daquilo, um reencontro, uma obra por terminar, um alguém esperando, suportava mais o atravessar.13 Voltaremos a ele quando os pensadores entrarem na conversa.

Dormentes e ativos. Nem todo sentido está aceso o tempo todo — nenhum cérebro gastaria energia assim. Um sentido pode dormir anos dentro de você e acender num instante. A cena: você caminha para casa, no piloto automático, com um único sentido ativo (chegar). No meio da calçada, uma garrafa PET jogada no chão. E então acontece aquilo que os desenhos animados representam com uma lâmpada acendendo sobre a cabeça: um sentido guardado — “lixo se joga no lixo” — desperta, assume o feixe por trinta segundos, gera uma ação (você pega a garrafa, joga na lixeira) e volta a dormir. A lâmpada dos desenhos é isto: a ativação súbita de um sentido dormente. E o fenômeno inverso também existe, e é ainda mais impressionante: um evento de sentido pode transformar uma tarefa odiada, “sem sentido nenhum”, numa das coisas mais preciosas do mundo. O peso de um sentido não é fixo — e isso muda tudo sobre como julgar o presente.

Importância, urgência e valor no tempo. Todo sentido carrega uma importância (o peso) e uma urgência (a pressa) — e ambas variam com o tempo e na comparação com outros sentidos. O peso de um sentido hoje pode ser diferente do peso que ele teve no passado ou terá no futuro; com frequência, só a passagem do tempo revela o peso verdadeiro — é por isso que tantas decisões “óbvias” só se mostram certas ou erradas depois. Quando o peso de um sentido se consolida — pelo tempo, e pelas outras vidas que também o pesaram — este guia o chama de valor.

Trocar de sentido não é desistir. Vidas mudam de sonho — e muita gente carrega isso como derrota, como prova de fraqueza. A lente lê o contrário. Diante de planos que não se realizaram e de cenários que nunca vão acontecer, a vida que troca de sonho — em vez de abandonar o sonhar — está fazendo o gesto mais vivo que existe: redirecionar a lanterna. A vida muda de direção, muda de sentido, e nunca busca ter menos sentido. Mudar de sonho é a prova de que ainda se sonha. E o que vale para sonhos vale para o resto: pessoas, lugares, projetos, os bichos que amamos e perdemos — a vida troca e retroca os seus sentidos ao longo do tempo, e a régua é sempre a mesma: enquanto busca, vive.

O limite da atenção. Ter vários sentidos não significa ter atenção infinita. Há um paralelo conhecido da gestão: nenhum gestor comanda diretamente cem pessoas — a atenção não estica; por isso equipes têm tamanho, e gestores têm gestores. Com os sentidos é igual: ninguém sustenta cem feixes fortes ao mesmo tempo. Viver bem inclui alocar: decidir quais sentidos merecem o feixe principal agora, quais podem dormir tranquilos, e quais — com honestidade — devem ser encerrados.

As perguntas práticas. A pergunta clássica — “qual é o sentido da vida?” — intimida e paralisa. A boa notícia é que ela não é a única porta: existem muitas perguntas diferentes que apontam para a mesma direção, e as versões práticas funcionam melhor no dia a dia. Duas delas: O que faz você acordar todo dia? e O que, em algum ponto do dia de hoje, faria você sorrir — e validaria ter acordado? Quem responde a essas duas já encontrou seus sentidos menores; e subindo a cadeia deles — este serve a quê? e esse, a quê? — chega aos maiores. E aqui vai o que talvez seja a frase mais importante deste capítulo: uma vida não precisa compreender cem por cento “o” sentido da vida para viver uma vida com sentido. Se existe, para ela, um sentido que organiza os dias, que dá lógica às escolhas e que a faz bem — então ela já vive (ou já viveu, ou vai viver) uma vida com sentido, propósito e significado. É isso que este guia busca, no fim das contas: não converter ninguém a uma resposta, mas ajudar cada vida a encontrar e sustentar os sentidos dela — nos termos dela.